Misael Nbrega - 16 de Agosto de 2016 - (909 j leram)

IMAGENS REFLETIDAS. (Por Misael Nbrega de Sousa)

Silêncio nas alcovas. O sufocamento dos gritos era a única forma de arte. Os ratos abichavam as migalhas dos mecenas. As ordens marciais levavam todos à sarjeta. Uma leva desce aos porões à cassetetes e botinadas. Os olhos, vendados. Há sangue nas mãos? O crime: queriam pichar os muros. Não houve luta armada; passeata dos cem mil; prisões e tortura; resistência e mortes... – Pelo menos, não houve para mim.

Cidadãos-mochos; pássaros da morte, por assim dizer. Inominados. Heróis, nunca! O Brasil negou a si mesmo. O ócio foi o meu confessor; e isso era garantia de estar vivo. Esperar na conformidade... – A sujeição era a sobrevivência e, portanto, a humilhação. Quem sabe uma guerra não teria manchado de vermelho o céu da pátria. Ouvíamos comentários de patriotas capturados. E eu? Um arquétipo de fracalhão para os “milicos” – Pior que foi assim mesmo. 

Havia ideias sobre as suas cabeças; e, apenas ali, permitia-se o alargamento das coisas. O resto era contravenção: beijos na escadaria; sobejos de vinho; uma melodia assobiada de Chico, um poema rabiscado em plena rua... – Só a subversão podia me redimir da fraqueza. Vivíamos em dois “Brasís”.

Cantávamos o hino nacional, perfilados no pátio do Colégio Estadual Pedro Aleixo (um udenista mineiro que se aliara aos generais), às quintas-feiras, enquanto a bandeira brasileira era hasteada. Quando a encenação acabava, voltávamos, enfileirados, para uma outra Auschwitz, que ficava dentro de nós; e, ali, nos cárceres, disfarçados de salas de aula, ensinavam-nos a “Moral” e o “Civismo”. A falsa propaganda matou todos os sonhos e pariu filhotes. 

As músicas de Roberto Carlos eram permitidas nas vitrolas; e os filmes de pornochanchadas no cinema do Prado.... – Quando se conseguia um desligamento mental. E nada de Deus. Naquela época morreram todos os artistas. Eu, como exemplo, natimorto de 1969. E o homem estava na lua. O apostolado foi meu opressor. Fiz a primeira comunhão. Tinha ficha na igreja, portanto. E todos aqueles azulejos e vitrais da basílica de Santo Antônio só aumentariam o meu pavor da vida: anjos com espadas e expressões ameaçadoras; serpentes e leões; cabeças decepadas... – O povo sangrava para defender a sua crença e morria pela causa. Obra de Deus foi arrolada na batalha.

Colecionava selos de ex-presidentes e disputava figurinhas da copa de 74. O futebol sempre foi o ópio do povo. “Pra frente Brasil”. Os jornais eram censurados e as TV’s mostravam desfiles de moda, enquanto os generais fodiam o país. Não vi “Calabar”, de Rui Guerra e Chico Buarque. Lamarca e Marighela eram apenas sobrenomes. Só li “Os carbonários”, de Alfredo Sirkys, em 1985. Depois foi que alguém escreveu poemas mimeografados. Penso que a vaidade possa ter criado alguns semidivinos. Assim, alheio; e, de costas para a realidade... - Qual era o meu Brasil? – Antes da resposta, a ditadura acabou.

A ditadura acabou por ela mesma. Não quero contar a verdade para meus filhos, pois na tentativa de me mostrar, posso estar querendo me esconder. A minha única esperança é reaprender a viver. Porém, ainda há caudilho disfarçado de vergel.  

Espero no dia em que a coragem vai nos rebelar e seremos um só bando: heróis, covardes e inocentes. Só não indultaremos os ímpios. Então, fica decretado que nesse dia. Dia de nossa fortuna. Marcharemos nus e erigiremos cada período destruído. Ao exílio, condenaremos os aniquiladores de nossos gozos. Não gritaremos palavras de ordem. Ressuscitaremos os mortos de boa fé. Reabriremos todas as portas. Daremos a cada poeta o direito à declamação ao ar livre. Vandré será nosso autofalante. Os generais serão deportados; e para cada soldado uma flor. A parada de sete de setembro deixará de existir; ao invés dela, um berro de independência. Nada de ordem e progresso - respeitaremos as diferenças. A religião será o pão de cada dia. Um minuto de silêncio será respeitado para qualquer funcionário público que for declinado á sepultura. 

1964 será proclamado o ano que não existiu; assim como as baionetas e os camburões. O novo regime será a liberdade; e o presidente Carlos Drummond de Andrade.

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