Zenilda Lua - 13 de Junho de 2016 - (632 já leram)

Enternecimento. Por Zenilda Lua

Um dia o amor veio 
Condensado e cético
Revelou-se de manhã, na hora do almoço, no meio da tarde e de madrugadinha.
Quando se descuidava ficava mais terno e dava de soprar minhas pálpebras.
Tocava meu colar de miçanga com a ponta do dedo.
Vigiava meu colo e benzia minhas costas com as duas mãos.
Quando eu ficava avulsa e sonhava em quebrar a frieza do tempo, ele evocava xícara de café leitosa e deitava dentro pedaços de chocolate dos bem amargos.
Eu bebia o amor com a ponta dos olhos e lambia os beiços.
Lembro que ele não sentia cócegas, mas se encolhia que era uma beleza!
Achava linda a sonoridade da sua voz e a lonjura de todos os cheiros.
Gostava de encostar meu nariz frio no pescoço dele, escorrer pela bochecha até esbarrarna cova silenciosa do seu queixo.
Memorizava a curva de cada cílio e depois o abraçava com sobras.
O amor não revidava. 
Sabia que sou estilhaço de eco.
Algumas vezes deixava-me suspirosa e desadormecidae saia de mansinho, leve, incauto e pertinente com a mesma aura que têm as cantigas de roda.
Outras vezes todo lembrativo me alertava: “olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo”!

Zenilda Lua

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