Zenilda Lua - 23 de Novembro de 2016 - (991 já leram)

Um Novembro repassado. Por Zenilda Lua

Já havíamos comprado passagens, escolhido a roupa do dia, preparado o espírito para o maior encontro do ano e continuávamos; eu e a irmã (que mora em São Paulo), negando a possibilidade de ida. Todas as desculpas cabiam nos telefonemas. Hora por conta do trabalho, hora por ser economicamente inviável, hora porque NÃO, ora!
Eles faziam silêncio e, carinhosos, diziam compreenderem o descomparecimento. Mas não entenderam quando aparecemos de surpresa no meio do salão branco todo enfeitado com folhas perfumosas  e, estendemos os braços para o abraço mais despossuído de posses e mais festivo de toda essa vida. Lágrimas sinceras orquestraram aquele momento. O coração mais parecia uma boiada em galope que um músculo vital embalando o peito.

Estávamos os seis de novo envolvidos pelo enlaçar do amor. O amor genuíno da matriz primeira. O amor que transborda, reveste, consagra, integra, reforça as batidas cardíacas e os pisões na unha do dedão. Justifica a colmeia bulinada com as pedras da coivara, a tapioca cozida no respiradouro da fornalhinha, o roubar das frutas de Tia Anália, os peixes do poço de Seu Zezito e nenhuma chinelada. Meus irmãos e eu, minha mãe e eles. O único sobrinho, as cunhadas, o cunhado, o Tio que nos deu de presente a primeira bicicleta.

Minha alma de beradeira voltava para ao  reflorescer do brejo (no tempo em que havia invernada) o milho embonecado e as outras safras descansando no paiol, o alpendre que cheirava manjericão e malva braba. O recreio no terreiro rústico, o ciscar das galinhas e a pintaiada. A leitura de cordéis, a oraçãozinha antes de dormir que o pai ensinava  e, todas  as humildes solidariedades. Tudo estava ali sobrepujando naquele salão.

A mãe deu o braço esquerdo a  ele e caminharam suavemente para onde  o Juiz estava. Os padrinhos também adentraram e a noiva que mais parecia uma princesa com hábito sereno, chegou pontualmente cheirosa a sorrir. 
Apanhada de sol sem conseguir fechar a torneira das lágrimas permaneci encostada na claridade daquela manhã, enquanto o responsável pela trilha sonora do evento cantava aumentando a percepção para as garantias divinas:

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