Zenilda Lua - 13 de Fevereiro de 2016 - (1264 já leram)

Ela compõe meu divino quadro-família.

Sou de cochilos e cachos, ela é atleta e vaidosa. Sou toda coração, ela é exata. Gosto de escrever e ela de dançar.
Continuamos parceiras como no tempo que cuidávamos da fazenda de flores.
As minhas eram brancas, amarelas e azul bem dormentinho; flor de malva, bogari, nove horas e alfazema.
As flores dela tinham cor perpétua e absoluta; flamboyant, carmim, girassol e açaí vivíssimo.
Eu tinha medo de alma penada. Sofria contrita olhando as estrelas de claridade baixa. Evitava aproximação com dois conhecidos de nossa mãe porque eles consultavam os mortos. Eu ficava a recitar para eles Deuteronômio 18:10, sem êxito algum.
A irmã temia papa-figo e, Zé Biró; doente mental que era filho da “mulher que pegava menino”.
Só bem depois viemos saber que a “mulher que pegava menino” era a parteira. D. Leondina, ajudava as mulheres na hora de darem à luz. Nunca tirou fígado de criancinha como imaginávamos.
Minha irmã é uma orquestra de sentidos.
Corajosa moça de honestíssimas pétalas.
Corta o pé nas alturas, mas não tira o salto.
Nunca falta ao serviço nem se aborrece quando adio o depósito das minhas promessas.
Se alguém espreme seu coração eu viro uma fera aflita.
Agachada na tocaia do sereno nem respiro, só penso em pegar minha espingardinha de soquete invisível e, brincar de cobrir o coisa-ruim com folhas mal cheirosas e segredos de senhas.
Minha irmã é uma extensão de tudo que é favorável.
Repara minhas roupas e jóias de miçangas advindas dos tabuleiros hippies.
Tenta me ajeitar com seus xales finos, suas camisas de carestia e calças de marca que encobrem a brancura fina de minhas canelas.
Vira as costas eu a engabelo. Volto para minhas estampas florais e brincos de madeira reaproveitada e conchinhas do mar.
Ela é uma dádiva. Toda prontidão de minha sorte.
Seguro no seu braço direito com as duas mãos de cuidados, como na infância irmãzinha e, na parte mais limpa da alma lhe guardo diariamente.
Temos sonhos comuns, gostamos de jardins.
Quando a mãe lhe punha para tomar sol, acomodadinha num cesto que parecia berço, eu ficava inventando que as florzinhas de pereiro que, sombreava o terreiro, falavam contigo e, você punha-se a sorrir com minha fala de raposa espavorida:
“ Faz cara de feliz menina banguelinha, faz cara de feliz!” você fazia.
Por obediência natural ao esquecimento, não te lembras mais destas passagens.
Não faz mal, eu as reinvento. Pois me falta talento para esquecer.

Zenilda Lua

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