Zenilda Lua - 26 de Abril de 2016 - (770 já leram)

De claridade baixa

Hoje eu escrevo porque sou uma postergada amiudando-se no repúdio de algumas afirmaçõesindigestas.

Escrevo porque uma trêmula tristeza me descompensa.

O sol não dourao trigo e o vírus da zikaainda ganha força para se espalhar doloridamente.

O amigo curte um fascista ejá se faz tarde. E já não há diálogo e já não há mais outro remédio.

Escrevo porque dói toda essa mediocridade humana, esse consumismo insano, as ponderações as práticas de Hitler,o amor aos bens finitos, a falta de esperança e de poesia.

Sinto como se já estivessem exauridas todas as cantigas das lavadeiras,o seus cheirosde água e sabão-de-coco, rodilhas de pano, trouxa de roupas e pedras de anil guardadas na touceirinha de capim-santo.

Parece que estamos nos perdendocada vez mais depressa. Esquecendonossa genial capacidade de transformação.

De tombo em tombo, de burrice em burrice acabaram com as quermesses de maio e com a algazarra das crianças que brincavam de pegar o arco-íris com as duas mãos.

Se não fosse pela certeza que o reino de Deus está próximo eque Jesus é o caminho, a verdade e a vida, eu me transformaria numa vasilhavelha de olhar caído, acocorada no pé do borralho, preferindo tecer esteiras com cipó fino tirado do brejo, a ser gente e ter essa voz de sino grande que não serve para nada. Nadinha!

 

Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?

(João Guimarães Rosa)

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