Ricardo Souza - 6 de Novembro de 2013 - (11042 j leram)

Parabns radialista: A histria do radialismo em Patos e sua evoluo

Buscando uma das mais antigas e consistentes formas de pesquisa, adentramos na memria de Batista Leito para encontrar os principais pontos formadores da histria da comunicao falada em nossa centenria cidade. Tudo comeou na dcada de 30, com a instalao de um servio de som, iniciativa de Sinfrnio Azevedo, com sede no sobrado de Major Tobias, na rua Miguel Styro. O seu funcionamento era o mais improvisado possvel, contando com poucos recursos tcnicos, mas constituindo o nico meio do gnero. Mais tarde, a estrutura fora adquirida pelo senhor Manuel Cabral da Nbrega (Man Lino), e passou a ser denominada de ?A Voz das Espinharas?, com 18 alto-falantes espalhados pelos principais pontos da urbe, mudando a sua sede para outro prdio localizado na mesma artria. Mesmo sem um grau elevado de estudo, o segundo proprietrio da difusora era uma espcie de intelectual formado pela escola da vida, com uma enorme bagagem de conhecimento e criatividade o que deu um impulso considervel ao referido meio de comunicao. Natural de Patos, filho de Josias lvares da Nbrega e Maria das Dores Cabral, Man Lino viveu parte de sua juventude entre a Bahia e o Estado de So Paulo, regressando terra natal em 1936.

A programao diria do nico meio de comunicao falada da cidade de Patos, tinha incio s 18:00 horas e no havia tempo determinado para a sua concluso, j que enquanto existisse carto sonoro para ser divulgado o equipamento permanecia no ar. Alm das mensagens dos enamorados, constavam espaos jornalsticos e aos domingos um programa de auditrio era realizado, com a participao de calouros, sempre mantendo a rivalidade de dois grupos musicais: ?Micelnia Sonora? e ?Trio Sucesso?. O dono do servio de som era poltico pela prpria natureza, bastante ligado ao PSD, no entanto nunca chegou a ser prestigiado pelo seu partido, ao ponto de no ter tido sequer a concesso de uma candidatura a vereador, o que lhe provocou grande mgoa. Durante toda a dcada de 40, ?A Voz das Espinharas? reinou absoluta e s encerraria suas atividades pouco depois do falecimento de seu proprietrio em 09 de setembro de 1966, vtima de um colapso. Patos conviveria com outros servios do tipo, tradicionais em determinadas pocas, a exemplo da Difusora de Ferreira Filho; ?Cruzeiro do Sul? de Otaclio Monteiro e ?A Voz do Comrcio? de Patrissom.

A primeira emissora de Rdio da Capital do Serto, a exemplo das demais existentes na atualidade, chegou pelas mos de polticos e objetivava propiciar espaos eleitorais em meio comunidade, levando-se em considerao o poder da radiofonia. A Rdio Espinharas, ZYZ-6, operando em 1470KHz, foi instalada no ano de 1951, trazida pelas mos de Pereira Lira, homem bastante influente no Governo Federal, que disputava a eleio de senador concorrendo com Ruy Carneiro. Na mesma poca ele conseguiu as emissoras Arapuan de Joo Pessoa e Caturit de Campina Grande. A primeira pessoa a se pronunciar nos microfones da Rdio Espinharas, montada por Tefilo de Vasconcelos, foi o ento deputado Ernani Styro, momento em que criava o seu slogan: ?Patos falando mais alto e para mais longe?. Tal registro se deu s 16:15 horas, do dia primeiro de agosto. A direo foi confiada ao Dr. Manuel Quindio Sobral, enquanto a gerncia administrativa e financeira ficou a cargo do Dr. Chico Soares. Os primeiros locutores foram: Z Rodrigues, Gilberto da Estatstica, Professor Rosalvo e a jovem Celina.

Em virtude da pressa para a instalao da emissora, a antena teve que ser improvisada e sua matria-prima era madeira, instalada na murada da Usina de Luz, local onde seria construdo o Hotel JK. Contou-nos Batista Leito que naquela poca Patos possua uma movimentada feira de gado, sempre nas quintas, para a qual convergiam pessoas de toda a regio. Em uma certa ocasio um boi mascarado bateu a cabea contra a referida estrutura, que acabou tendo que ser diminuda em mais de um metro. Mesmo assim ela continuou com um alcance satisfatrio, uma vez que no existia muita interferncia dada a falta de outros meios de comunicao do tipo.

Com a vitria de Ruy Carneiro e conseqente derrota de Pereira Lira, passou a existir uma falha no funcionamento da Rdio Espinharas, tendo em vista a perda do estmulo do seu idealizador, j que o maior objetivo era poltico. Alm de vrias mudanas, inclusive de esquema partidrio, a emissora passou pocas sem funcionar e s veio a alcanar a normalidade quando foi adquirida e reaberta em 30 de junho de 1958, por Drault Ernani, que enfrentaria o mesmo problema eleitoral, aps lograr xito em uma campanha de deputado e ser derrotado na suplncia de senador, para acabar vendendo a estrutura Diocese de Patos, em 1962. Adquirida pelo Movimento de Educao de Base, criado por Dom Expedito Eduardo de Oliveira, a nica estao de rdio do serto recebeu um suporte considervel com a implantao de novos equipamentos, passando a constituir um dos maiores instrumentos de educao e evangelizao que no pararia de crescer, chegando condio de um dos maiores meios de comunicao do Estado da Paraba.

At a dcada de 70, as emissoras de rdio constituam uma das poucas opes de lazer e, sem a concorrncia da televiso atuavam at mesmo no campo das novelas, com dramatizaes permanentes e seqenciadas, a exemplo da Paixo de Cristo, apresentada na Semana Santa.

 Muitos so os profissionais da imprensa falada de Patos que se destacaram ao longo dos anos, porm, nenhum foi to autntico quanto o veterano Batista Leito. Nascido no Stio Ligeiro, em 24 de junho de 1930, filho de Manoel Pedro de Oliveira e Izabel Leito de Arajo, teve como primeiro endereo na sede da Capital do Serto a Rua Felizardo Leite, cuja transferncia se deu por volta de 1933, poca em que o seu pai deixara a agricultura para se dedicar construo civil, trabalhando na edificao de audes, setor que dominava pela experincia acumulada. Com relao aos estudos relembra a grande dificuldade da poca, acrescentando que por conta da pouca condio financeira no chegou a concluir o curso de admisso. Relembra que na dcada de 40, momento em que a Paraba era governada pelo interventor Ruy Carneiro, s podia estudar quem tivesse a farda, sendo que o Estado doava aos carentes e aqueles que tinham condio seriam obrigados a fazer tal aquisio. Por ser sobrinho de Joaquim Leito, o qual possua uma frota de carros, o pequeno Batista acabou sendo cortado da segunda srie. Como uma das alternativas o seu genitor lhe matriculou numa escola de alfabetizao de adultos, no perodo da noite, o que duraria pouco tempo, uma vez que durante uma visita da inspetoria tcnica de ensino, proveniente de Joo Pessoa, o adolescente teve que colocar os livros debaixo do brao e regressar ao lar. Em 1948, com a morte do pai e de um cunhado, Batista Leito assumiu a responsabilidade das duas casas o que lhe impedia de estudar, dedicando-se inteiramente a funo de apalazador no ramo coureiro-caladista. Mais tarde, dada insistncia, chegou a freqentar uma escola de admisso, sob a direo da professora Alice, durante seis meses, encerrando desta forma todas as oportunidades de ensino regular e passando a ter como nica alternativa de educao a escola da vida.

Desde muito cedo, Batista Leito se interessou pelo setor de comunicao e em 1950 costumava acompanhar Joo Francisco at a difusora de Man Lino, onde o referido amigo era uma espcie de colaborador. Todas as noites, aps uma grande jornada de trabalho, se dirigia ao sobrado onde funcionava os estdios e costumava passar horas preparando textos em uma mquina de datilografia existente no local.

Em 1951, Otaclio e Ronald Queiroz, adeptos da candidatura de Darclio Wanderley Prefeitura de Patos, enviaram um emissrio ?Voz das Espinharas?, na busca de um locutor para realizar um trabalho de divulgao. Como no havia ningum no momento, o Jovem Batista se prontificou a realizar a tarefa e, na companhia do senhor Jlio, o portador da mensagem, rumou para o Tnis Club, onde foi submetido a uma espcie de teste. Minutos depois j estava desenvolvendo a faanha que marcaria mais um ponto de partida profissional, desfilando na cidade e entoando sua voz no carro de som de Ciro Ramos. No dia seguinte comandou o primeiro comcio e mais tarde era contratado por Man Lino como locutor oficial do servio de alto-falantes, com salrio mensal de 15 mil ris. Na referida misso permaneceria at 1958, oportunidade em que se submeteria a um concurso na Rdio Espinharas, do qual participaram 15 candidatos e apenas trs conseguiriam vagas. O teste era ao vivo e dele faziam parte: leitura, dico, reportagem, noticirio curto, improvisaes e desenvoltura para programas de auditrio. Alm dele, conseguiram aprovao: Ione de Sousa e Djalma Candeia.

Na Rdio Espinharas, Batista Leito atuava em todos os estilos, mas acabaria se tornando conhecido pelo Forr do P Rapado, programa destinado aos setores perifricos e zona rural, composto de entretenimento e uma ampla prestao de servio. Como existia muita dificuldade de comunicao escrita por conta da falta de estrutura dos Correios e irregularidades dos endereos, as pessoas ausentes de Patos costumavam enviar cartas aos seus parentes atravs do programa. Nesta poca, Batista Leito desenvolvia atividades comerciais e entregava as correspondncias no seu estabelecimento, principalmente s segundas feiras quando convergiam para Patos as pessoas residentes na zona rural, as quais acabavam se tornando seus fiis clientes.

O Forr do P Rapado tinha em sua ?Latada? a presena de danarinas imaginadas pelo produtor, as quais eram, a todo momento, citadas na programao: Boca de Gamela, Chica Potoca, Maria Encaicadinha, Maria Murioca, Zefa Boz, Lngua de Vaca, Maria do Cotovelo Azul e Zefa Espaia Brasa.

Batista Leito permaneceu na Rdio Espinharas at 1992, oportunidade em que se aposentou, mas acabou voltando a atuar no Sistema Itatiunga de Comunicao, apresentando o Forr do Seu Man, alm de outros estilos em determinadas pocas.

Em 05 de fevereiro de 1980, inaugurada a segunda emissora de Rdio, graas iniciativa do deputado Ernani Styro e seu sobrinho Mcio Styro, sendo que a constituio da empresa (concesso) datava de 06 de agosto de 1976. A Panati AM, operando em 1 KW, passou a funcionar em sede prpria, na Avenida Epitcio Pessoa, 242 centro. A solenidade de inaugurao contou com a presena de vrias autoridades, entre elas o ento governador Tarcsio Burity e foi marcada por uma grande apresentao em Praa Pblica, do Rei do Baio Luiz Gonzaga.

Foi tambm atravs da iniciativa dos dois parlamentares que a cidade de Patos ganhou a primeira emissora em freqncia modulada a operar em toda a regio sertaneja. A Panati FM teve sua liberao para ir ao ar, concedida pelo Ministrio das Comunicaes em primeiro de janeiro de 1986, passando a servir de escola para vrios nomes que passaram a constituir os novos mtodos de comunicao, no aprimoramento do setor atravs da evoluo dos tempos.

J o Sistema Itatiunga de Comunicao, veio para Patos por iniciativa do deputado Edivaldo Motta, sendo que sua primeira emissora de Rdio em Freqncia Modulada iniciou sua programao em 08 de junho de 1990, cuja empresa fora constituda em 09 de julho de 1986, enquanto que a AM funciona desde primeiro de janeiro de 1991, autorizada pelo Ministrio das Comunicaes em 09 de junho de 1990.

Alm das duas FMs e trs AMs, Patos passou a ser servida pelas Rdios Alternativas: do Centro, Conjunto No Trajano, Jatob e Bivar Olintho, institudas a partir de setembro de 1997, alm da Rdio Comunitria Morada do Sol, com Stdio na Rua Vidal de Negreiros.

A primeira Associao de Radialistas de Patos, idealizada por Ary Rodrigues, foi criada em 1961, a partir de uma reunio realizada nos Escritrios da Rdio Espinharas, presidida pelo deputado e advogado Jos Gayoso, especialmente convidado na qualidade de honorrio da categoria, com a presena de militantes da emissora e amplificadoras. Tambm esteve presente o vice-prefeito, Otvio Pires de Lacerda, que aceitou o convite para fazer parte da associao como dentista da entidade. Depois a cidade ganharia a AIP, congregando todos os profissionais da Imprensa e com a sua desativao surgiria, no incio do sculo XXI, a AISP Associao de Imprensa do Serto da Paraba.

Com relao Imprensa Escrita, passamos a ser servidos pelas sucursais do Jornal A Unio, O Norte, Correio da Paraba e Jornal da Paraba, entre outros j extintos a exemplo de ?O Momento?, alm de um Escritrio da TV Paraba e vrios jornais peridicos editados por profissionais da terra. Contudo, as primeiras manifestaes de menor alcance em termos jornalsticos, datam do incio do sculo XX, geralmente lanadas no perodo da Festa de Nossa Senhora da Guia.

Sobre fatos arbitrrios contra a nossa imprensa, vale relembrar no passado distante a ocorrncia registrada em 30 de dezembro de 1962, quando o Jornalista Calmon Lvio Canuto, fundador e redator do Jornal ?Gazeta de Patos?, foi vtima de agresso por volta das 16:30h, em frente ao Foto Artstico, por elementos ligados ao jogo de azar que campeava na cidade, tendo seu equipamento fotogrfico danificado, alm de ter sido ameaado de morte.

Com a passar dos tempos e a conseqente evoluo, a Capital do Serto da Paraba foi adentrando na modernidade e com relao comunicao estamos enfim, ?falando mais alto para mais longe?.
Fonte: Patos em Revista

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